quarta-feira, 1 de abril de 2015

Conto do absurdo

Não foi rápido, mas muita gente não teve tempo de perceber.
Ou não quis perceber enquanto ainda era tempo.
Depois de formar a bancada evangélica, alianças com a burguesia e a multiplicação acelerada de fiéis, o congresso foi tomado. A palavra laico foi até excluída do dicionário, por precaução, para prevenir que as futuras gerações sequer soubessem o que foi isso. Um exército foi criado.
Evidentemente, ateus, católicos, espíritas, umbandistas, e até alguns evangélicos lúcidos, tantos, muitos não aceitaram. Era tarde demais para querer qualquer coisa. Ela cresceu digna de um Megazord do Power Rangers. Montada de pernas de aço e um escudo que formava a palavra fé. Fé em quê? Ninguém sabia mais, mas era o que ditavam a televisão, os professores, as pessoas nos ônibus e padarias, se não se cumprimentassem com “a paz” haveria guerra, e das feias!
A população foi ficando cada vez mais assustada, havia medo de se declarar não-protestante, pois todos sabiam dos castigos e punições, das prisões por “evangélicofobia” e na intenção de se instaurar uma lei de queimada de bruxas em praça pública.
A Igreja Católica vendo aquilo enlouqueceu. Foi se deixar levar pelos anos e enfraquecer sua monarquia e agora assistia à tudo aquilo correndo de um lado para o outro, acuada e enfurecida.
Um dia marcaram um duelo no centro da capital do país. A beira de uma síncope gritou a indignada a plenos pulmões para a rival: “QUEM TE DEU AULAS NESSES ANOS?” E ela com supremacia e extrema satisfação respondeu: “Você! Nos livros de história!” e soltou uma gargalhada maligna e gélida, digna de um Mumm-Rá, Esqueleto, ou coisa que os valha.
Uma chacina sem tamanho se ocorreu daí. De um lado o desespero pelo rumo que as coisas  haviam tomado, do outro a palavra de Jesus, a fé, os dez mandamentos, a Bíblia, os cânticos, a venda de indulgências, os jesuítas, a busca pela supremacia, a inquisição, a expansão territorial, o século XII...  ...  ... um momento.
Acho que me perdi na história.
Bem,  o fato é que depois de fazer escorrer o sangue de toda a gente as duas explodiram num BUM!
E a Terra virou só silêncio e desolação.
Em nome de Jesus todos morreram sem sequer saber que ele lá em cima já tinha sofrido três infartos vendo tamanha insanidade.
Deus em seu lugar veio e juntou os pedacinhos da humanidade.
Fez uma prece silenciosa e disse: 
“Que vergonha vocês sempre me fazem passar!”.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Pra você


Olho em seus olhos por uma fração inacreditável de tempo, tão pequeno quanto sua pinta que adorna o rosto, e nesse instante sinto com toda a força como sou feliz em estar aqui, com você.
Vivemos já tanta coisa e eu guardo em mim tanto significado que já não é mais possível apagar seu nome da minha estrada.
Se a vida nos separasse, por algum desencontro ou infelicidade, sem pedir licença você continuaria sempre aqui. Compacta como és, caberia em qualquer canto, e por ser tão cheia de encanto, mesmo que por azar alguma mágoa houvesse ficado, suas marcas me impediriam de não amar você um pouco.
Te acho uma pessoa tão extraordinária que sei que em minha vida não haverá outro alguém igual. Nem se eu dissesse o contrário; jamais acreditaria em minhas próprias mentiras.
Pensei nisso hoje enquanto namorava o seu cabelo. Nesses segundos em que te olho e vago no teu vasto ser.
Você é tudo aquilo que me mantém próxima de mim, e eu gosto disso. Eu te amo como nunca achei que fosse capaz de amar. Com você há metamorfose, sou primitiva, sou luz, sou o que ninguém espera, sou eu e nenhum ponto a mais.
Te acho a pessoa mais bonita desse mundo, te admiro até sentir meu coração doer.
Te amar dói a dor de um parto. Daquela que se deseja, que explode em felicidade mas não deixa de ser aguda.
Nasce de mim uma emoção diferente a cada vez que ouço seu coração bater em meu ouvido.
Amar você foi e é, a coisa mais linda e mais difícil que já fiz.
Me sinto eufórica, na ponta do topo do mundo, prestes a transbordar, se você diz que sou capaz eu não duvido
Sinto que nasci pra te ver sendo feliz.


sábado, 20 de setembro de 2014

Flores de plástico

Quem quer ser flor de plástico pra se tornar imortal? 
Deixar de ser, ver, ouvir e sentir pra viver imune à vida. 
Que graça tem?
Vão-se as tristezas mas junto vai a alegria. 
As dores de uma flor de pétalas e espinhos não existem, mas o brilho também não. 
Todo rosto corado passa por um banho de lágrimas leitosas pra se hidratar. Sem a chuva preparatória o sorriso resseca no ardor do sol. 
O beija-flor pode incomodar com carinhos roubados e inconvenientes mas quem trocaria sua beleza por um espanador de pó? 
Flores de plástico acumulam poeira. 
As outras se deixam voar junto com o vento.
Quem então escolheria ser flor de plástico pra ver o mundo passar da mesa de centro de uma sala vazia?
E eu respondo: muita gente. 
Você certamente conhece, eu também, assim como já fui uma. 
A gente acha que fugir da injeção é escapar da dor, e não percebe que assim se aproxima da doença. Troca a dor momentânea por uma maior. 
Viver é a melhor maneira de aprender a viver. Encaremos a dor sentindo-a. 
As flores de plástico são eternas. Porém solitárias em sua exclusiva existência que não ramificou. 
Somos mortais, mas podemos dar frutos. 
Entretanto, deixar sementes exige sacrifícios. Com a delicadeza e força da flor, naturalmente desprendida do mundo, vamos aprendendo o ciclo. Tentar sucessivamente, ao sabor da brisa em cada primavera, a se renovar, despertar e fluir.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Tempo de chover


Nem sempre a gente quer alguém que nos console.
As pessoas tendem a acreditar que a atitude correta é enxugar avidamente as lágrimas do queixoso e dizer que no final tudo acaba bem, que todo mundo tem seus problemas e "bola pra frente".
Nem sempre.
Às vezes a gente simplesmente não está a fim de ser otimista. É necessário, e purificador, ter um espaço para tão somente desaguar.
Sem mais delongas e explicações, conformismos e frases de efeito.
Deixe que a minha mágoa escorra e corra livre pelos meus poros.
Que o meu cansaço seja escoado para que não me esgote.
Que seja sem jeito, irremediável, dolorido enquanto dure o infinito de uma crise. Uma seção de soluços, assoar de nariz e dor de cabeça.
Seguido de um suspiro e, só aí, o retorno à margem da razão.
Mas antes disso, por favor, deixe minha tristeza transbordar.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Música: Morena



Já tenho algumas músicas de covers postadas no YouTube, mas essa, é minha. Minha cria, uma música que fiz e tenho muito carinho por ela pois é um marco do início da era da felicidade na minha vida. Pois bem, esta aí pra vocês. Em breve vou postar muitas outras, começando pelas já registradas... Hum... falei demais!
Conheçam o meu som, que diz muito sobre mim.

♡

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O armário


Ele tem portas de vidro,
Porém mais frágil é meu coração.
Se eu assoprar nada acontece,
Mas uma palavra pode ser o fim
Ou o começo
Ou uma revolução.
Tem gente aqui dentro comigo
Tem gente lá fora gritando
E eu sei quem finge não existir.
Esse armário
Essa amarra
Esse amar
Esse ama
Ama ela
Ama sim.

Me dá a mão?
Não cumpra o que você promete a cada palavra chula
Apenas me ouça
Me ame
Me solte
Se desprenda
Aprenda comigo!
Me ensina mais sobre você
Me traz pra perto
Não quebra essa porta que ela é frágil
Porém não mais que meu coração
Abre com cuidado
Me deixa chorar
Me desagua
Aprende a gostar de mim
Assim
Assim.

Escuta meu coração
Escuta meu som
Coroa meu sim
Me tira da margem.
Se não der agora, eu espero
Saio devagar pra não doer tanto
Até o dia em que você quiser reler
E aceitar minhas linhas
E me dar a mão
A cabeça em pé.
Eu espero
Mas vou esperar vendo a luz do sol
Vou te mostrar que só é possível ser feliz
Sendo quem se é.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Reclamações e sessão da tarde

Ah, como a gente nada sem saber que o destino é encalhar. Já faz tempo que me encontro na areia, completamente paralisada, analisando minhas numerosas decisões a serem tomadas, dilemas, sonhos e viagens sem nexo. A areia é metafórica, pois, se eu estivesse mesmo na praia, pelo menos estaria penando ao sol. Mas não, tudo o que me cerca são paredes e pisos brancos que urgem serem limpos diariamente. E patas, dentes, pelos caninos indo na contramão - um capítulo à parte.
Até escrever tem me custado. Minha criatividade está abalada, meu desânimo em alta. O que dizer sobre escrever quando até ir à padaria me cansa.
Hoje é meu dia de reclamar, sim senhores, pois eu também tenho este direito. Afinal, este ciclo de "não faço nada porque não consigo e não consigo porque não faço nada" é de matar. Psicologicamente, fisicamente... Estou acabada. Nem meus planos absurdos estão dando conta... Terrível.
Fico procurando um canto, vendo filmes repetidos e evitando os livros. Me arrasto pra lá e pra cá tentando me convencer de algo - qualquer coisa - : sem êxito. Invento tiques, não produzo, imito, me desespero e logo em seguida me desmotivo. Vou pensando em fórmulas pra sair de vez desde labirinto e ao mesmo tempo me perguntando quanto tempo vai demorar.
Aí já quero ser criança outra vez.
Ou envelhecer no rg o que envelheci nas pernas e na cabeça. Assim, num plim! acordar depois de uma bela avançada no tempo.
Veja só que ideia de gente que não tem o que fazer.
E lá vou eu pro meu armário, repetindo "30 a idade do sucesso". Tudo o que cai na minha cabeça é uma montanha de poeira e o único acontecimento extraordinário é uma avalanche de espirros.
 Continuo com 20, ferrada e sem perspectivas.
A vida não é sessão da tarde.
E, se fosse, o pó mágico me transformaria numa mulher de 30, ferrada e sem perspectiva.
Aposto.


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