quarta-feira, 17 de julho de 2013

Parênteses

Preciso desabafar sobre um assunto.
Parece que uma parte da população da minha cidade natal está se remexendo nos seus sofás por causa de um assunto: hospitais psiquiátricos (e o que acontece lá dentro). Há quem levante a bandeira de que tais hospitais devem ser fechados. Será que essas pessoas já pisaram em um? Não estou dizendo que é o melhor lugar do universo, longe disso. Mas existem pessoas que moram lá desde que nasceram. Não tem ninguém do lado de fora esperando por elas e nem a mínima noção de como é estar desse lado. Nas muitas vezes que estive no Mental (que ocupa o segundo lugar no ranking de mortes, segundo o Flamas) nunca vi o horror retratado por aqueles que defendem uma revolução no tratamento psicológico. Neste ponto, concordo. Existem muitas coisas que devem ser modificadas. A área precisa de mais profissionais, estruturas melhores e um controle mais incisivo naquilo que é feito dentro de locais deste porte. Porém, e este é um porém significativo, não é fechando as portas destes hospitais que resolveremos os problemas. Ao invés disso criaremos muitos outros. Uma família não possui estrutura física e psicológica para tratar crises de doenças como a esquizofrenia, por exemplo, como é o caso da minha. É horrível ter que internar alguém em um lugar como aquele? É. Mas é como diz o ditado: ruim com ele, pior ainda sem. Se a luta for para capacitar os profissionais, chamar a atenção do governo para a situação, buscar fundos para reformas, contratação de mais pessoal, eu apoio sem sombra de dúvidas. Mas fechar os hospitais como forma de resolver é tão absurdo quanto fechar os olhos imaginando que assim o que não queremos ver irá sumir. Existem pessoas que moram lá há anos, como já disse anteriormente. Se no caso da minha avó, que tem pra onde ir, tem uma família, já é difícil, imagine pra quem não tem? Para as famílias é desesperador. Não há remédios suficientes, em crises da doença a pessoa pode machucar física e emocionalmente à ela mesma ou alguém que ame. E o horror quando elas ''acordam'' e percebem o que fizeram é de cortar o coração. Para quem não possui uma família, eu pergunto, qual será a solução. Jogar nas ruas? Transferir para outras cidades? Ora, não faz o menor sentido. Hospitais psiquiátricos já foram cenários de absurdos sim, também acompanhei essa fase. E hoje em dia também não mudou completamente. Mas é isso que estou dizendo, as mudanças precisam urgentemente acontecer, porém o tratamento deve existir. Deve ter gente que nem sabe que no Mental as internas nadam na piscina, saem para dar passeios, ganham presentes, fazem terapia ocupacional, entre tantas outras coisas. São maltratados? Em alguns casos, pode ser que sim. Afinal, existem milhares de hospitais e milhões de casos. Pra quem acha absurdo, só peço uma coisa: passe uma noite no Hospital Regional, na ala psiquiátrica, em que os pacientes dormem dias e esperam com seus acompanhantes por uma vaga em uma Clínica. É assustador. Estes pacientes estão lá porque chegaram no limite do que a família suporta. Agressivos e com uma força fora do comum. Não aprovo de maneira nenhuma as práticas que eram realizadas antigamente, os choques e todos aqueles horrores que conhecemos. Mas as vezes a força precisa ser usada. É doloroso, é sofrido, porém se não for assim eles podem machucar a si e a outros pacientes mais debilitados.
Existem pacientes com todo o tipo de enfermidade: mudos, surdos, cegos, que não se movimentam. E também existem os que andam, gritam, batem, xingam, são fortes. Como conciliar? Não é fácil, existem milhões de coisas a serem consideradas. Mas aí eu digo: vamos fechar os hospitais! Que lógica é essa? Querem melhorar a saúde mental das pessoas ou ''livrar'' nossa cidade dos hospitais só pra ter como dizer: ''aqui não temos disso mais!". Temos que pensar nas pessoas. Nos cidadãos que moram dentro desses corpos e que apesar da doença sentem, pensam e sofrem. O hospital não tem sido a melhor opção mas é a única e bem ou mal cumpre seu papel. As enfermeiras e recepcionistas do Mental demonstram carinho pelas internas o tempo todo. Por todas elas, sem exceção.
Não é fácil manter as coisas no eixo com pouca atenção das autoridades para o caso. Esse dinheiro que vai aos montes para os bolsos alheios deve ir para o que precisa e esse é um exemplo. Vamos olhar para essas pessoas, para as famílias, para os profissionais e para o hospital em si. Conhecer as suas fraquezas e tentar ajudar. Colocar um pano por cima não vai tornar a situação mais bonita visualmente. Ou pode até ser que torne mas estamos falando de pessoas e não de objetos. Pessoas velhas e novas. Algumas com 18 anos e a vida toda pela frente. Tirar delas a chance de se recuperar e estudar, trabalhar, formar uma família, ou mesmo morrer em paz, em casa, seria crueldade sem tamanho, já pensou nisso? Maior ainda que os choques de outrora.

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